quinta-feira, 31 de julho de 2008

Resumo dos grandes eixos do curso – Parte II

Aqui continua o resumo dos assuntos abordados na disciplina. Se você tem preguiça de procurar os outros, clique aqui.

Quarto Eixo – Modernidade líquida/Príncipe eletrônico
Nesse segmento, tratamos de um dos assuntos mais recorrentes do semestre, a tal da Modernidade Líquida, termo cunhado por Zygmunt Bauman, que ajuda a definir, ou melhor, caracterizar o tempo em que vivemos, marcado pela inconstância e pela adaptabilidade (ou simples substituição) de tudo.

Na mesma aula, tratamos do Príncipe eletrônico, concebido por Otavio Ianni, que é uma derivação do Príncipe moderno, idéia de Gramsci (a grande diferença é que o príncipe moderno é o partido político moderno, coeso e consciente de sua ação – nos ideais de Gramsci –, enquanto o príncipe eletrônico é uma entidade muito menos homogênea e que age muitas vezes de maneira passiva). Para Ianni, os meios de comunicação, como um todo, se encaixaram no papel do príncipe, do líder, do condutor da sociedade, oferecendo a ela o que pensar, o que desejar e, principalmente, o que consumir.

Essa idéia de dominação através dos meios de comunicação permeia diversas obras de ficção, como os livros 1984 e Admirável Mundo Novo além de filmes como Mera Coincidência e O Show de Truman. O assunto foi marginalmente tratado neste post, falando sobre o livro Fogueira das Vaidades.

Quinto Eixo – Cultura McWorld
Mais uma vez o curso entra nos aspectos econômicos da comunicação e, nesse caso, tratamos das relações entre a mídia, as grandes marcas e corporações e o telespectador (também conhecido como consumidor). A idéia do Mc World é um mundo onde todas as forças, principalmente os meios de comunicação, são voltadas para a manutenção do consumo, o que nos remete ao tal príncipe moderno de Gramsci e às idéias mostradas no livro Admirável Mundo Novo, que foi tema do nosso segundo seminário. *Agradecimentos ao Galvão pela brilhante entrevista que ele fez com o professor João Antonio Zuffo.

Nessa sequência de aulas, e sobre esse mesmo guarda-chuva, também trabalhamos com as questões da globalização e da publicidade, que são pontas-de-lança na formação desse mundo. Procurei tratar do tema levantando um fato curioso, que comentei neste post, feito em maio.

Sexto Eixo – Agenda Setting/Espiral do Silêncio
Dois outros conceitos muito interessantes tratados no curso foram as idéias de agenda setting e espiral do silêncio. Quando se fala de agenda setting, é fácil fazer uma idéia negativa do assunto e imaginar uma série de engravatados discutindo quais serão as pautas e tendências que a sociedade terá que engolir, mas essa mesma arma pode ser usada para o bem comum. A meu ver, a exposição de histórias sórdidas como o famigerado caso Isabella tem um lado funcional e até benéfico para a população. Procurei tratar disso em um outro post (que pode ser conferido aqui), falando de mídia e medo (aproveitando a deixa criada pelo seminário dos colegas).

A espiral do silêncio é um assunto mais restrito e realmente não consegui vincular nenhuma postagem a essa idéia. O post mencionado no parágrafo anterior está marginalmente ligado a esse tema, embora a história que mostrei tenha sido um verdadeiro caso de “espiral do barulho”, onde veículos de comunicação, alimentados por um sentimento popular, insistiram numa pauta até que fossem mudadas leis de segurança.

Conclusão
Embora infelizmente tenha perdido dois dos seminários finais, achei o curso proveitoso e as discussões me despertaram para uma série de questões que devem ser abordadas sempre, seja no estudo ou na produção de mídia. E a mensagem mostrada na última aula (na exibição de trechos de filmes de Charles Chaplin) serve de inspiração e nos lembra que podemos e devemos ter uma postura responsável em relação à comunicação que produzimos, reproduzimos ou mesmo criticamos.

Bibliografia completa do curso
ARBEX JÚNIOR, José. Showrnalismo: a notícia como espetáculo. São Paulo: Casa Amarela, 2001.
CASTELL, Manuel. A galáxia da Internet: reflexões sobre a sociedade, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
CHAUÍ, Marilena. Simulacro e poder. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2006.
CHOMSKY, Noam. Controle da mídia: os espetaculares feitos da propaganda. Rio de Janeiro: Graphia, 2003.
COSTA, Caio Túlio. “Por que a nova mídia é revolucionária”. Líbero IX, n. 18, dez. 2006, pp. 19-30.
DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
DEBRAY, Régis. O Estado Sedutor. Petrópolis: Vozes, 1994.
FRANÇA, Vera Veiga, Teorias da comunicação: conceitos, escolas e tendências. 5ª. edição, Petrópolis: Vozes, 2005, pp. 187-240.
HOHLFELDT, Antonio. “Hipóteses contemporâneas de pesquisa em comunicação”. In: HOHLFELDT, Antonio, MARTINO, Luiz C. e
HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo. 2ª. edição, Rio de Janeiro; Globo, 2001.
2006.
JORNAL NACIONAL: A NOTÍCIA FAZ HISTÓRIA. 12a. ed. revista, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005.
KELLNER, Douglas. A cultura da mídia. Bauru, SP: Edusc, 2001.
KOVACK, Bill e ROSENSTIEL, Tom. Os elementos do jornalismo: o que os jornalistas devem saber e o público exigir. São Paulo: Geração Editorial, 2003.
KUCINSKI, Bernardo. Jornalismo na era virtual: ensaios sobre o colapso da razão ética. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, Editora Unesp, 2005.
KUNSCH, Dimas A. O Eixo da Incompreensão: a guerra contra o Iraque nas revistas semanais brasileiras de informação. Tese de Doutorado, São Paulo: ECA-USP, 2004.
KUNSCH, Dimas A. “Comprehendo, ergo sum: epistemologia complexo-compreensiva e reportagem jornalística”. Communicare 5, n. 1, 1º semestre 2005, pp. 43-54.
KUNSCH, Dimas A. “Teoria guerreira da incomunicação: jornalismo, conhecimento e compreensão do mundo”. Líbero ano VIII, n° 15/16, 2005, pp. 22-31.
LIMA, Venício A. de (org.). A mídia nas eleições de 2006. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2007.
MORAES, Dênis de. O planeta mídia: tendências da comunicação na era global.Campo Grande: Letra Viva, 1998.
MORAES, Dênis de (org.). Por uma outra comunicação. Rio de Janeiro: Record, 2004.
MORIN, Edgar. A cabeça bem-feira: repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.
ORWELL, George. 1984. 29ª. edição, São Paulo: Editora Nacional, 2003.
RAMONET, Ignacio. A tirania da comunicação. Petrópolis, Vozes, 1999.
SERVA, Leão. Jornalismo e desinformação. 2ª edição, São Paulo, Editora Senac, 2001.
TALESE, Gay. O reino e o poder: uma história do New York Times. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
TOSCANI, Oliviero. A publicidade é um cadáver que nos sorri. 2ª. edição, Rio de Janeiro: Ediouro, 1996.
WARD, Mike. Jornalismo online. São Paulo: Roca, 2006.


Resumo dos grandes eixos do curso – Parte I

Chegou a hora de fazer a postagem final. A idéia original neste blog era atualizar uma vez por semana ou, pelo menos, vincular um post para cada grande eixo do curso. Como (para alguns) vivemos nos tempos da chamada modernidade líquida, acabei adaptando e a coisa foi mudando de forma ao longo do semestre. Neste trabalho final, o plano é tentar reconstruir essas ligações.

Primeiro eixo – Ponto de vista Epistêmico
Uma das primeiras discussões e reflexões do curso foi sobre como enxergamos a mídia, tanto no papel de estudiosos do assunto quanto no papel de pessoas e agentes da vida pública. E uma das noções mais importantes desse curso foi a de colocar a mídia na frente de um prisma e enxergá-la em todas as suas facetas sejam elas boas, ruins ou neutras. A questão do ponto de vista epistêmico envolve a compreensão de todas essas partes, o que requer um certo distanciamento do objeto de estudo e um desapego aos (pré) conceitos criados antes do curso. Procurei tratar disso no meu primeiro post do blog (leia aqui), falando sobre o caso da revista Esquire, que por coragem, estupidez ou ambos, optou pelo paradigma da compreensão e se posicionou contra a maioria da opinião pública.

Segundo Eixo – Conglomerados midiáticos
Outro grande gerador de assunto na sala foi a questão dos grandes conglomerados midiáticos. Abordamos a polarização criada pelos grandes grupos internacionais de mídia e, adiantamos discussões futuras, como a pasteurização e a mercantilização da informação, promovida por grupos como a FOX. Nessas aulas, a sala também aproveitou para descer a lenha nas organizações Globo e, não sem razão, na revista Veja. Esse olhar ajudou o meu grupo a focar no tema do seminário livre, que foi justamente sobre o contraste na abordagem dada por duas revistas (Veja e Carta Capital), durante a cobertura da mais recente sucessão de poder em Cuba (leia um resumo do seminário aqui).

Outro grande momento do seminário foi a entrevista com o jornalista Roberto Guimarães, conseguida em ótima hora pela Luana. Guimarães levantou várias questões muito relevantes sobre jornalismo e comunicação (a entrevista pode ser conferida neste link). Aliás, agradecimentos também à Mariana, que editou magistralmente o vídeo quando tudo mais tinha dado errado.

Terceiro Eixo – Convergência digital
Nesse bloco, começamos a tratar da questão digital, das novas mídias e sobre a influência que elas têm nas chamadas “velhas” mídias. Uma das coisas mais interessantes desse assunto (a meu ver) é que existe uma percepção sempre muito positiva em relação às novas mídias e tecnologias embora, nem sempre, exista a mítica e tão celebrada democracia digital proporcionada pela web 2.0. Comentei o assunto no segundo post do blog, que pode ser lido aqui. Vale dizer também que o assunto rendeu também material para o pessoal do grupo que discutiu o livro A Galáxia da Internet.

Fim da primeira parte, confira o resto do resumo no próximo post.

sábado, 26 de julho de 2008

O princípe, a agenda e a fogueira

Estou lendo A Fogueira das Vaidades, romance de Tom Wolfe e percebi vários aspectos do livro que são relevantes ao tema Mídia e Poder. Dos assuntos abordados nas aulas, os que mais transparecem, nessa obra, são os conceitos de princípe eletrônico e de agenda setting.

Resumindo muito, o livro trata da história de um operador da bolsa de valores de Nova Iorque que se envolve em um acidente carro no Bronx, atropelando um adolescente e fugindo sem prestar socorro. Em situações normais, o caso seria esquecido em dias, mas, por ter acontecido em período eleitoral, a história começa a tomar contornos políticos e atiça os interesses de grupos (políticos, religiosos corruptos, jornais sensacionalistas e minorias étnicas e culturais). A partir daí, cada grupo interessado passa a manipular e exercer sua influência sobre os veículos de comunicação para transformar o caso num verdadeiro espetáculo.

Em pouco tempo, o acidente ganha uma nova proporção e "passa a ser" de interesse de toda a sociedade. Sob esse aspecto, é possível vislumbrar o princípe eletrônico, de Otávio Ianni, quando o aparato da mídia (conduzido voluntária ou involuntariamente por grupos interessados) determina uma pauta relevante apenas para certos setores da sociedade, mas que se torna dominante em todos os veículos de comunicação.

O livro é muito bem escrito e o autor mostra de maneira inteligente e sutil como cada grupo faz (ou procura fazer) seu próprio agenda setting, utilizando "ferramentas" de comunicação para explorar o lado da história que melhor lhe convém. Isso remete diretamente às nossas aulas iniciais, quando decidimos enxergar e abordar os meios de comunicação como instrumentos e não como uma entidade com vontade própria. Em Fogueira das Vaidades, não existe a clássica dicotomia entre espectadores inocentes e indefesos versus a "grande mídia" que distorce a percepção da realidade, mas sim um complexo jogo de poder entre diversos grupos.

Para quem se interessou mas não está com disposição para ler o livro, também existe a versão adaptada para o cinema, dirigida por Brian de Palma e estrelada por Tom Hanks, Bruce Willis e Melanie Griffith.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

O sabor da antiglobalização

Quando pensamos ser a hegemonia cultural, completa, e a globalização, inescapável, é sempre agradável encontrar um lampejo de resistência (e deboche) à assimilação total pelo mundo das grandes marcas e corporações, ainda mais se os enfrentados são leviatãs transnacionais como a Coca-Cola e a Pepsi.

Lançado em 2002, o refrigerante de origem francesa, Mecca-Cola, surgiu no mercado como uma opção para muçulmanos que não aceitavam uma cultura (personificada na forma de um certo refrigerante gasoso) imposta por forças comerciais. Aos poucos, a Mecca-Cola foi capaz de agremiar uma legião mundial de simpatizantes, o que permitiu a sobrevivência e até a expansão da marca, mesmo em locais onde já estava bem estabelecido o domínio de Coca/Pepsi. Hoje, a Mecca-Cola e outros refrigerantes de apelo islâmico (como a Zam Zam Cola, a Parsi Cola e a Quibla Cola), disputam, em diversos países, espaço com os gigantes do Ocidente.

Ainda que de maneira diferente, temos também, no Brasil e no Peru, pontos de resistência contra a imposição da brand Coca-Cola. No Brasil, temos o exemplo do guaraná Jesus, que , no Maranhão, ainda é mais consumido do que a Coca-Cola, e no Peru, a Inka Cola, cuja popularidade forçou cadeias de restaurantes fast-food como o Mc Donalds a estabelecer acordos unilaterais com a empresa peruana.

O relativo sucesso do refrigerante é um sinal de que não é impossível resistir à anexação e a homogenização completa; um sinal de que existem componentes culturais e comportamentais que sobrepujam a força dos veículos de comunicação em massa e mesmo de que a exposição excessiva de propaganda acaba gerando munição para seus próprios opositores.

Se a publicidade é um cadáver que nos sorri, sempre é possível sorrir de volta.

sábado, 12 de abril de 2008

Violência gratuita?

Em meio à polêmica do caso Isabella e relembrando a apresentação do mini-seminário sobre a cobertura dos ataques do PCC em São Paulo, ainda fica uma questão em aberto. Seja ela ética ou não, a exploração do medo e da angústia humana podem, de fato, promover mudanças na esfera pública?

Talvez.

Lendo casos sobre fotos históricas, acabei passando por uma que realmente me chamou a atenção. A imagem de uma adolescente e uma criança caindo de uma escada de emergência em um prédio incendiado em Boston. Uma impressão perturbadora é a de que o uso dessa imagem claramente forte poderia servir apenas para gerar interesse e vender jornais, apelando para os mais básicos instintos e sentimentos humanos. Embora eu duvide, pode até ter sido esse o intuito original, mas ainda assim, os desdobramentos da publicação dessa imagem levaram a sociedade a lutar por melhores condições de segurança, o que obrigou o governo a criar novas leis e a exigir das empreiteiras novos padrões para a construção e manutenção das saídas de emergência de edifícios (como pode ser visto na pág. 37 deste PDF).

Dois anos depois, em 77, Stanley J. Forman, o mesmo fotógrafo que cobriu esse incêndio, ganhou um Pullitzer por outra imagem, uma foto realmente chocante, que mostra um manifestante branco usando uma bandeira dos EUA como arma para alvejar um negro, durante uma controversa manifestação sobre atos de dessegregação racial em Boston. Novamente a publicação da imagem gerou muitas críticas e desconforto e pode ter incitado ainda mais violência, mas até hoje ela é usada simbolicamente para levar a questão racial à luz e gerar maior entendimento sobre o assunto.

Nesse mesmo ano, a bela crônica “Herói. Morto. Nós.”, de Lourenço Diaféria, publicada na Folha de SP, apresentava contornos semelhantes. A crônica tratava de uma situação recente, cheia de detalhes obscuros e uma morte sórdida, elementos que, hoje em dia, poderiam torná-la um "Caso Isabella" da vez. Discorrendo sobre o caso de um militar-herói que se sacrificou para salvar uma criança no zoológico, o excelente texto de Diaféria (que pode e deve ser lido aqui), apresentava alguns pontos bastante pesados e atingiu em cheio o orgulho do exército brasileiro, o que acarretou a prisão imediata do jornalista e quase levou ao fim o jornal. Mas toda a polêmica levantou, na época, uma discussão sobre censura que, de certa forma, ajudou a garantir a liberdade de imprensa no País.

Embora seja claro que existam muitos fatores (muitas vezes mesquinhos) além da bravura de alguns veículos ao publicar material indigesto, entendo como bastante complicado apenas julgar a questão vista a partir de uma torre de marfim, e sugerir que não exista uma relevância real na exposição desses fatos pela Mídia.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Pequenos poderes

Recentemente li uma matéria sobre democracia na Internet e, como achei muito relevante para o curso, resolvi colocá-la no blog. Para quem está desocupado (e domina o idioma inglês), o texto (na íntegra) se encontra aqui. Para aqueles que não têm paciência ou tempo para ler, segue um pequeno recorte sobre o assunto.

A matéria começa tratando do crescimento de sites de social-media, como a Wikipedia e o Digg, e sobre o mito de democracia que permeia essas duas forças. Chris Wilson (autor do texto) procura mostrar que, diferentemente do que se pensa, a internet não é exatamente a “feliz vila dos Smurfs”, onde todos contribuem e são igualmente importantes para a comunidade.

Através de duas pesquisas (que podem ser vistas aqui e aqui), ele indica que cerca de metade do conteúdo da Wikipedia é produzido por apenas 1% de seus usuários e que o Digg – site onde se concentram clippings de notícias cuja relevância é decidida pelos leitores –, é dominado por uma "elite" de 100 usuários que contribuem com 44% do conteúdo total publicado. Na primeira pesquisa ele aponta que, na Wikipedia, podem ser percebidas 2 castas distintas de contribuidores. Uma de uns poucos privilegiados, que escrevem a maior parte do conteúdo, e outra, muito mais numerosa, que é responsável pela padronização, checagem e correção dos textos

O caso do Digg é ainda mais impressionante. Quando os administradores do site constataram o desequilibrio que havia nas contribuições, logo procuraram alterar o sistema para que ele incluísse as matérias de maneira a diversificar o conteúdo e diminuir a concentração de matérias por colaborador. Prontamente, os 'Top 100' (maiores contribuidores do Digg) produziram um manifesto e ameaçaram abandonar o site, o que forçou os administradores a voltar atrás em sua decisão e manter a anomalia no sistema, temendo que o boicote criasse um vácuo que pudesse ser sentido pelo resto da comunidade. Mídia e Poder (por menor que seja) é isso aí!

No final do texto, Wilson lembra da necessidade de promover medidas que impeçam que os sites sejam inundados por informações falsas e contribuidores mal-intencionados, mas questiona a necessidade de concentrar a autoria do conteúdo nas mãos de uma parcela tão pequena de usuários.

Bom para refletir sobre novas mídias e velhos vícios.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Porrada!

Para primeiro post deste blog, achei uma história bastante interessante que ilustra como, nem sempre, os veículos de comunicação estão a serviço de Satã e do grande capital.

Nos início dos anos 60, a Esquire, uma revista americana de variedades, publicou uma capa, no mínimo, chocante. Um polêmico Papai Noel negro, na edição de dezembro de 1963. Como se isso não bastasse como crítica apimentada para a época, o modelo da capa era um controverso boxeador chamado Sonny Liston.

Campeão mundial dos pesos pesados e figura constantemente achacada pela sociedade americana, Liston era uma espécie de versão distorcida do sonho americano. Embora detivesse o título mais importante do boxe internacional, era ex-presidiário, analfabeto funcional e mantinha relações com a máfia. Graças ao seu baixo carisma e histórico pouco popular, o lutador era desprezado tanto por brancos como negros americanos e, não raro, era chamado pela imprensa por alcunhas nada agradáveis como 'animal', 'mau negro' e 'o campeão que ninguém queria'.

A imagem foi um verdadeiro soco no estômago da sociedade, apresentando o inimigo público número 1 das "pessoas de bem", glorificado em uma capa e, para desgosto de muitos, representando uma instituição cristã intocável para os americanos, o Natal. Mais amargo ainda, era o fato de que, recentemente, Liston, havia sido alvo de injustos ataques por meio da imprensa esportiva e de diversas organizações civis, que fizeram uma verdadeira campanha nacional para impedir que ele disputasse o título e para que fosse impossibilitado permanentemente de lutar como profissional.

Contrariando qualquer lógica comercial, a Esquire fez, corajosamente, um panorama da época e expôs em uma única imagem, as tripas da delicada questão racial em um país onde boa parte da imprensa estava disposta a impedir um atleta de competir por acreditar que todo "mau negro", ex-criminoso e extravagante – em contraposição a um "bom negro", servil e moderado – deveria ser varrido para debaixo do tapete da história.

Mas nem tudo são flores. Entre toda a publicidade perdida, anunciantes que debandaram e os inúmeros leitores que cancelaram suas assinaturas, a revista estima ter perdido, só por causa dessa capa, cerca de US$ 750.000. Mas vale muito mais do que isso perceber que nem tudo na mídia precisa ser um produto para consumo rápido e digestão leve.